Redes Sociais:
HomeOpiniãoUm governo, três discursos

Um governo, três discursos


O Portugal Digital publica uma série de nove artigos de análise e perspetivas sobre o novo ano, de jornalistas, escritores, advogados e professores universitários do Brasil e de Portugal. O nono e último artigo é de Alfredo Prado, diretor do Portugal Digital.


O ciclo é novo. O presidente, originário da cavalaria, parece gostar do tom marcial, amaciado por décadas de convívio com os seus pares na Câmara dos Deputados. No dia da posse, discursou por duas vezes, conforme o rito definido. Primeiro, no Congresso Nacional, que reúne Câmara dos Deputados e Senado, para parlamentares e convidados; depois, no Palácio do Planalto, falou para a multidão de populares que o vitoriavam, concentrados na Praça dos Três Poderes. O terceiro discurso ficou por conta do ministro da Casa Civil.


Seriam 115 mil brasileiros e brasileiras, segundo dados divulgados pela Presidência da República, que saíram de casa, no dia de Ano Novo, para estarem perto do seu “mito”, como gostam de chamar Jair Messias Bolsonaro. Uma multidão, sem dúvida, embora muito abaixo das previsões do Palácio que apontavam para 250 mil a 500 mil o número de apoiadores do novo presidente que iriam à Esplanada dos Ministérios ovacioná-lo. Mesmo assim, um colorido bonito, verde amarelo, as cores da bandeira nacional, que “nunca será vermelha”, como garantiu Bolsonaro no seu segundo discurso ao povo.

Primeiro discurso. Um pouco antes, durante cerca de dez minutos, no grande salão do Congresso, onde tomou posse, juntamente com o vice-presidente, o general Hamilton Mourão, Bolsonaro repetiu compromissos de campanha que foram a chave da sua vitória, designadamente a luta contra a corrupção, um objetivo partilhado pela generalidade do país. E, entre uma promessa e outra, destilou, com o tom aguerrido que lhe é peculiar, ataques diretos aos opositores e defensores do “politicamente correto”, assegurando, é claro, o compromisso de respeitar a Constituição democrática e o Estado de direito.

Messiânico, o presidente disse, em seu primeiro discurso, que irá “restaurar e reerguer a nossa pátria”. “Aproveito este momento solene e convoco, cada um dos congressistas, para me ajudarem na missão de restaurar e de reerguer nossa Pátria, libertando-a, definitivamente, do jugo da corrupção, da criminalidade, da irresponsabilidade econômica e da submissão ideológica”, disse.

Bolsonaro tem pela frente, segundo proclamou, uma “tarefa gloriosa”. Na mesma linha grandiloquente transformou um atentado, cometido por um tresloucado, isolado, de acordo com informações policiais vindas a público, numa conspiração política. “Quando os inimigos da pátria, da ordem e da liberdade tentaram pôr fim à minha vida, milhões de brasileiros foram às ruas. Uma campanha eleitoral transformou-se em um movimento cívico, cobriu-se de verde e amarelo, tornou-se espontâneo, forte e indestrutível, e nos trouxe até aqui”, afirmou o novo presidente do Brasil.

Segundo discurso. Momentos depois, após desfilar para milhares de apoiadores na Esplanada dos Ministérios e receber das mãos do ex-presidente Michel Temer, já no Palácio do Planalto, a faixa presidencial, Bolsonaro discursou de novo.

E começou por dizer: “me coloco diante de toda a nação, neste dia, como o dia em que o povo começou a se libertar do socialismo, da inversão de valores, do gigantismo estatal e do politicamente correto”.

O novo presidente não explicitou ao que se referia, ou pretendia dizer, quando falou em socialismo – regime ou sistema que nunca esteve vigente no Brasil –, nem o que entende por “politicamente correto”, mas, parece ser alguma coisa demoníaca de que o Brasil se deve libertar.

Compreensivelmente eufórico – não é sempre que um ex-capitão e ex-parlamentar quase desconhecido é democraticamente eleito Presidente da República -, Bolsonaro enfatizou as riquezas do país. “Temos recursos minerais abundantes, terras férteis abençoadas por Deus e um povo maravilhoso. Temos uma grande nação para reconstruir e isso faremos juntos. Os primeiros passos já foram dados. Graças a vocês, eu fui eleito com a campanha mais barata da história”, disse.

E voltou à cruzada ideológica, de extrema-direita, em que se especializou nos últimos anos nas redes sociais. “Não podemos deixar que ideologias nefastas venham a dividir os brasileiros. Ideologias que destroem nossos valores e tradições, destroem nossas famílias, alicerce da nossa sociedade”, apelou. “E convido a todos para iniciarmos um movimento nesse sentido. Podemos, eu, você e as nossas famílias, todos juntos, restabelecer padrões éticos e morais que transformarão nosso Brasil”.

Um Brasil padronizado, um Brasil com uma verdade única, parecem ser as grandes metas de Bolsonaro, que nos remetem aos tempos sombrios que se viveram em muitos países, entre eles Portugal, mergulhado que esteve durante meio século numa ditadura sangrenta em nome de objetivos que parecem ser de novo partilhados por supostos salvadores de pátrias e pretores imbuídos de fervores prussianos.

“Vamos retirar o viés ideológico de nossas relações internacionais. Vamos em busca de um novo tempo para o Brasil e os brasileiros. Por muito tempo, o país foi governado atendendo a interesses partidários que não os dos brasileiros. Vamos restabelecer a ordem neste país”, concluiu Jair Bolsonaro no seu segundo discurso, não sem agradecer a Deus “por estar vivo e a vocês que oraram por mim e por minha saúde nos momentos mais difíceis”. “Peço ao bom Deus que nos dê sabedoria para conduzir a nação. Que Deus abençoe esta grande nação. Brasil acima de tudo, Deus acima de todos!” Assim, terminou o seu discurso ao país.

Terceiro discurso. O terceiro discurso não foi feito pelo presidente Bolsonaro. Foi proferido, quarta-feira, 02, pelo seu ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, que apelou a um “pacto de amor ao Brasil”.

O parlamentar saído da Câmara dos Deputados, do partido de direita DEM, apelou a um “pacto político” entre governo e oposição “por amor ao Brasil” e respeitando as diferenças ideológicas. O discurso de Lorenzoni, menos de vinte e quatro horas depois da posse presidencial, surge como aparente contraponto à cruzada verbal de Bolsonaro.

“Não é possível que a oposição não possa compreender, assim como o governo, que nós temos em alguns movimentos que serão enfrentados dentro de alguns meses a capacidade de, primeiro, olhar para o Brasil, segundo, olhar para as famílias brasileiras, terceiro, olhar para o presente das pessoas”, disse Onyx. “O diálogo será a marca deste governo”, afirmou.

Para Onyx, são legítimas as disputas políticas e o espaço delas será preservado. Segundo o ministro da Casa Civil, um dos mais próximos de Bolsonaro, há disposição por parte dos integrantes do governo em dialogar com a oposição. “Precisamos ter bons ouvidos para aqueles que se opõem ao nosso governo.”

O ministro destacou a orientação do presidente da República para todos da equipe. “Nós sabemos que temos a responsabilidade de conduzir o Brasil. E o presidente Bolsonaro é o primeiro a sempre dizer que nós temos uma missão, que nós temos que acertar cotidianamente, que nós não podemos errar. E uma das formas de não errar, quem conduz o Brasil, é poder ter bons ouvidos para aqueles se opõem ao nosso governo.”

“O desafio que nos espera é ter capacidade de dialogar, respeitar nossas divergências, mas como sempre colocar o Brasil em primeiro lugar. O pacto que queremos é o pacto pelo Brasil”, disse o ministro-chefe da Casa Civil.

Poucas horas depois do discurso, o ministro  Onyx Lorenzoni anunciou o início da “caça às bruxas” na Casa Civil do Planalto. Segundo o ministro, o objetivo é iniciar um processo de “despetização”. A medida, de acordo com ele, é promover uma “adequação” dos funcionários com o governo Jair Bolsonaro.

“Nós vamos despetizar o Brasil”. “Precisamos ter uma relação zerada. Governo é novo, ou afina com a gente ou muda de casa”. “Competência é questão número um. O que nós vamos buscar é retirar desses cargos quem é antagônico ao nosso projeto”, disse Lorenzoni.

A incógnita é se Bolsonaro manterá o compromisso solene de respeitar uma democracia plena ou se será tentado a enveredar, com o apoio de correlegionários, pelo caminho das arbitrariedades e crimes das “democracias musculadas”, em que o diálogo político, quando existe, é transformado em farsa. Há quem diga que acreditar na “reabilitação” democrática de um político que defendeu publicamente torturadores e negou a existência de práticas ditatoriais na história contemporânea do Brasil, e outras coisas mais, só poderá ser um mistério de fé.

*Alfredo Prado é jornalista e diretor do Portugal Digital e vive em Brasília.

Último Comentário

  • “Poucas horas depois do discurso, o ministro Onyx Lorenzoni anunciou o início da “caça às bruxas” na Casa Civil do Planalto. Segundo o ministro, o objetivo é iniciar um processo de “despetização”. A medida, de acordo com ele, é promover uma “adequação” dos funcionários com o governo Jair Bolsonaro” – Srº Alfredo Prado, esperar o que de um novo governo ao assumir, manter os funcionários indicados pelo partido onde seu maior líder esta preso por corrupção e acreditar que esses funcionários em cargos de confiança seguiram as diretrizes desse novo governo totalmente oposto aos seus pensamentos? ingenuidade ou compatibilidade dos seus pensamentos com desse líder?
    “A incógnita é se Bolsonaro manterá o compromisso solene de respeitar uma democracia plena ou se será tentado a enveredar, com o apoio de correlegionários, pelo caminho das arbitrariedades e crimes das “democracias musculadas”, acredito que o senhor Alfredo Prado tenha um pensamento esquerdista ate “esqueraopata” como esses que aqui vivem, espero realmente que Portugal não conheça nem tenha em suas administrações esquerdas como essas que usurparam e endividaram o povo brasileiro, financiaram obras que se feitas no Brasil ninguém nunca mais os tirava do poder, mas preferiram faze-las aos governos iguais…

    Que Deus abençoes o Brasil e sua nova visão de DIREITA pois a esquerda latino americana já mostrou para que serve!

Deixe um comentário