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Se não come cão, porque é que come polvo?


O animal mole e de aspecto vagamente gelatinoso, com tentáculos, que vê nuzinho de cores no supermercado ou no prato, será, à sua maneira, tão inteligente como o seu cão. E esse… come-o?


Peter Godfrey-Smith é professor de Filosofia na Universidade da Cidade de Nova Iorque e professor de História e Filosofia da Ciência na Universidade de Sydney (Austrália). Em 2016 publicou o livro “Other Minds – The Octopus, The Sea and the Deep Origin of Conscience”. “Other Minds” foi publicado em Portugal em 2017 com o título “Outras Mentes – O Polvo, o Mar e a Origem Profunda da Consciência” (ed. Temas e Debates/Círculo de Leitores, tradução minha) e sai este mês no Brasil com o título “Outras Mentes: O Polvo e a origem da consciência” (ed. Todavia).

“Outras Mentes” é uma obra muito interessante sobre a evolução das espécies e, nomeadamente, sobre a evolução dos cefalópodes (polvos, chocos e lulas) como inteligência superior e na perspectiva do seu relacionamento com a espécie humana. O autor parte, aliás, da observação directa de polvos e de chocos no meio aquático, nomeadamente numa baía da Austrália que baptizou como “Octópolis”. E é no testemunho directo das suas observações que “Outras Mentes” se torna fascinante para os leitores menos receptivos à matéria mais especificamente científica.

Godfrey-Smith, que levou os seus vídeos à “National Geographic” e à “New Scientist”, descreve o comportamento dos polvos e dos chocos e, possivelmente, o que muitos de nós não pensamos que exista: a capacidade destes cefalópodes de transformarem os seus corpos em caleidoscópios de cores, conforme os estímulos exteriores mas, também, como reacção aos estímulos exteriores. Pelo caminho também nos deixa episódios sugestivos: o modo como os polvos se relacionam com os seres humanos que mais perto estão deles e também com os obstáculos da vida: como desenroscam lâmpadas para tornar o ambiente mais escuro, como abrem frascos com comida e como atiram jactos de água contra tratadores mais irritantes.

Comentando que os cefalópodes, com a inteligência que os caracteriza, são verdadeiramente alienígenas, Godfrey-Smith assinala: “Quando os biólogos observam uma ave, um mamífero ou mesmo um peixe, são capazes de identificar muitas partes do cérebro de um animal com o cérebro de outro. Os cérebros dos vertebrados têm todos ums arquitectura comum. Quando os cérebros dos vertebrados são comparados com os cérebros dos polvos, deixa de poder haver certezas. Não há uma correspondência, ponto por ponto, entre parte dos cérebros deles e dos nossos. Aliás, os polvos nem sequer têm a maior parte dos seus neurónios dentro dos seus cérebros porque eles se encontram nos seus tentáculos. Perante tudo isto, a maneira de calcular o grau de inteligência dos polvos é ver o que eles podem fazer.”

Além dos seus neurónios, claro que, salienta Godfrey-Smith, são em número de 500 milhões (no universo do cérebro e do sistema nervoso central).

E, aqui chegados, vamos à comparação: o cão (o “Canis lupus familiaris”) tem no mesmo universo 530 milhões de neurónios. (O ser humano, claro, tem muito mais: 16 mil milhões de neurónios.)

Ou seja: o animal mole e de aspecto vagamente gelatinoso, com tentáculos, que vê nuzinho de cores no supermercado ou no prato, será, à sua maneira, tão inteligente como o seu cão. E esse… come-o?

Pense nisso, leitor, e vá espreitar “Outras Mentes”. Não perde nada, a não ser, com sorte, o apetite por polvos.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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  • Fica aqui meu agradecimento. Sou do Brasil e sei q em Portugal polvos São altamente consumidos, e acho difícil muitos parar de comer e pescar… Triste. No Brasil o consumo é menor e no meu Instagram Polvonatico, tento influenciar as pessoas a verem como polvos são animais que merecem viver sua curta vida livres no mar.

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