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Pinhal de Leiria e a arborização das dunas

Tenho lido algumas fantasias sobre a arborização das dunas e nomeadamente sobre o pinhal de Leiria. A efabulação já não é nova.


Na Serra da Boa Viagem no início dos anos 90, após o enorme incêndio que correu desde a Figueira da Foz quase até Mira, também apareceram pseudo-ambientalistas, arautos das espécies folhosas, das autóctones a qualquer preço, etc. O poder público, inclusive o então Presidente da República Mário Soares, também se deslocou ao local para recomendar que o pinheiro bravo fosse substituído por essas notáveis espécies. Os sonhos e o desconhecimento sobrepuseram-se à técnica e à ciência. O resultado foi que toda essa plantação foi literalmente comida pelas acácias e assim se gastaram inutilmente uns largos milhares de contos.

Mais tarde, em 1995, o cenário repetiu-se com o fogo que percorreu a Reserva Natural das Dunas de S. Jacinto. Literalmente em cima do fogo, uma técnica do ambiente afirmava para as televisões que o que tinha ardido eram exóticas!!! (pinheiro bravo), quase admitindo que não teria sido um grave problema, e que a dinâmica da vegetação iria promover o aparecimento das autóctones. Mais tarde, passou-me pelas mãos para análise um projecto que queria “exterminar” as acácias e plantar autóctones. Perguntei quais e responderam-me que era o sobreiro e outros carvalhos. As acácias encarregaram-se de ocupar o espaço…

A questão é que nesses espaços de dunas não existia uma ocupação arbórea e muito menos com espécies florestais.

As dunas são constituídas por areias praticamente sem matéria orgânica o que não permite disponibilizar solo que alimente as jovens plantas mais exigentes.

A arborização das dunas foi feita por um processo demorado, de fixação das dunas, instalação de paliçadas para limitar a acção do vento e das areias, colocação de matéria orgânica, matos, moliços e outros, que serviram de cama e alimento para as sementes poderem germinar e estabelecer o seu sistema radicular, encaminhamento de água, tudo isto para uma espécie rústica, o pinheiro, capaz também de suportar a salinidade, os ventos, a pobreza do solo.

Qualquer um pode ver como as primeiras filas de árvores junto ao mar são mais torcidas, tombadas, quase parecendo rastejantes, seja o pinheiro bravo no litoral norte ou o pinheiro manso no litoral sul.

Ignorar a técnica, a ciência, a história é dar com os burrinhos na água, ou na areia.

Sou muito a favor das autóctones quando há condições e interesse para elas, mas de forma alguma são uma mézinha para todas as situações e todos os males.

As fotos que junto são da arborização das dunas de Mira no princípio do século XX. São parte de uma colecção que me foi oferecida por um meu aluno da ESAC, actualmente colega, cujo tio tinha adquirido uma loja de fotografia e “herdou” este espólio.

* Vasco Paiva é engenheiro florestal

 

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Escrito por: Portugal Digital

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  • Muito esclarecedor, mas é assunto que precisa de uma sessão pública, para levar a comunicação social a divulgar estas análises
    António Melo

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