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O que se paga à mesa? (I)

A execução dos pratos foi perfeita mas demorada. Os pratos chegaram sofisticadamente decorados e coloridos e o meu até tinha uma flor, que não comi. Mas as doses revelaram-se dramaticamente exíguas. “Welcome” à “nouvelle cuisine”, portanto.


No centro da cidade de Caldas da Rainha há um restaurante interessante e com alguma fama e fui lá jantar há poucos dias, depois de uma recomendação de boa fonte. Tem o nome de Maratona, fica na praça principal e só o conhecia, sem nunca lá ter entrado, como café. Com bancos próximos, a Câmara Municipal, as Finanças e o Tribunal próximos, é natural que seja um estabelecimento acarinhado pelas elites urbanas locais.

O Maratona tem o espaço de café e o espaço de restaurante. À entrada, o restaurante pareceu-me apertado, com mesas a ocuparem quase o espaço todo, percebendo-se mal o balcão de serviço. Há uma parede toda ocupada com mesas e um assento corrido. De um lado, fica-se nesse assento e com vista para a sala. Quem fica no outro lado só ficaria a olhar para a outra pessoa, não fosse dar-se o caso de haver espelhos que até dão uma impressão de maior amplitude.

Neste jantar, a entrada foi um queijo de cabra assado com vários ingredientes inteligentemente combinados (a dividir pelas duas pessoas), os pratos foram um bife e barriga de leitão assada (com o nome sugestivo, como a maioria dos pratos, de “É porco bom, é” (por referência ao vernacular “É pouco bom, é”) e um gelado (a dividir). O vinho (tinto) foi um Casa das Gaeiras e beberam-se dois descafeinados e uma aguardente da Lourinhã. A execução dos pratos foi perfeita mas demorada. Os pratos chegaram sofisticadamente decorados e coloridos e o meu até tinha uma flor, que não comi. Mas as doses revelaram-se dramaticamente exíguas. “Welcome” à “nouvelle cuisine”, portanto.

No total, foram pagos 53 euros [ R$212,00]. Foi adequado? A resposta é complexa. A cozinha é indubitavelmente excelente e os meus dois fragmentos de leitão e um de risoto frito estavam muito bons. A espera (meia hora entre a entrada e o prato principal) pode ser justificada pela composição e certo é que nada vinha frio.

Só que o restaurante não se revela confortável. Não há distância capaz entre as mesas. À minha direita estava um casal inglês, ou australiano. O homem falava sem problemas de som, talvez por saber que poucas pessoas o compreenderiam. À minha esquerda estava outro casal, acho que português, que não falava. Ocupavam-se ambos do seus telemóveis. Por acaso, não pareceram mutuamente hostis. Nas outras mesas, os comportamentos variavam. Para meia hora, não é fácil.

E o problema é este: o tempo de espera exige conforto. E o conforto exige alguma privacidade quando se vai comer com alguém num sítio público. E isso, no Maratona, é impossível.

Há a tendência, em muitos restaurantes, de encher todo o espaço disponível com mesas a cadeiras. A ideia é rentabilizar ao máximo: mais clientes = mais dinheiro. Não me parece, no entanto, que isso tenha um valor universal. Porque deve existir um equilíbrio entre o que custa um prato e o ambiente. Neste caso, o preço da refeição (25,5€ por pessoa) pode justificar-se. Mas o espaço não justifica esse valor. E eu aceito pagar mais por um refeição se o ambiente me for mais agradável (ou se reconhecer o valor do investimento em termos de conforto para o cliente).

Digamos que, num caso destes, se o espaço fosse agradável, talvez voltasse. E até diria mais: com um espaço melhor, até voltaria, e para pagar mais: duas doses (quatro fragmentos de carne, mais dois de risoto, ou seja, 26€ [cerca de R$ 104,00] pelo prato principal) em vez da amostra que me foi servida. E se o fizesse, e pedisse duas doses só para mim e na mesma refeição, percebê-lo-iam?

DIGESTIVO

Há quem diga que, nos restaurantes, há uma norma tácita: o vinho servido à mesa é sempre duas vezes mais o seu preço de venda ao público. Ou seja, um vinho que pode custar 4 custa 8 à mesa, o vinho que custa 10 vai custar 20 e por aí adiante. Olhando para as listas de vinhos de muitos restaurantes, a norma parece realmente existir. E é praticável? Eu até posso gastar 15 num vinho especial, e sei onde o compro, ou 25 numa coisa extraordinária, ou mais. Mas, no restaurante (que não os compra como eu compro), vou gastar 30 ou 50? Não, quando lhes conheço o preço e sei onde posso ir buscá-los.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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Escrito por: Portugal Digital

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