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O fascismo alimentar

Há uma vertigem proibicionista na sociedade portuguesa que é tão estúpida como perigosa. Proíbe-se e pronto.


Os alimentos que, consumidos em excesso, fazem mal não se proíbem. Nem se encarecem, por imposição de taxas e taxinhas que, como é evidente, dão muito jeito a um orçamento nacional feito de máscaras e de sombras.

O sal em excesso provoca problemas na tensão arterial, as gorduras em excesso e o açúcar em excesso conduzem à obesidade e também à diabetes, os fritos em excesso têm reflexos no sistema digestivo e intestinal. O seu consumo, em excesso, faz-se por ignorância, por facilidade, por despreocupação com a saúde, por problemas de imagem própria.

A facilidade do seu consumo pode ser o principal problema. É ver o que escolhem agrupamentos familiares de gente obesa nos supermercados, o que comem as crianças e os jovens nos cafés e snack-bares junto à escolas (onde a comida “oficial” é pouco gostosa, insuficiente ou mesmo má, e por responsabilidade directa do próprio Estado que indirectamente a controla). E há outro: o que comem em casa essas pessoas, jovens e adultas? Basta ver o que compram à semana nos supermercados. O quadro é deprimente.

Nada disto desculpa, ou justifica, a decisão recente do Governo português de proibir fritos, bolos, enchidos e mais um rol arbitrário de alimentos… nos bares dos hospitais. A decisão parece querer ser mais (estupidamente) simbólica do que prática.

Os doentes internados comem o que lá lhes dão (e não consta que seja agradável). As visitas comem o que podem e onde podem e, mesmo quando se trata de presentearem os seus doentes com comida, aviam-se antes de entrar no hospital. E o pessoal, os enfermeiros, os médicos, o pessoal administrativo, os directores? Com tempo, vão procurar o que querem comer… lá fora.

Há uma vertigem proibicionista na sociedade portuguesa que é tão estúpida como perigosa. Proíbe-se e pronto. A população, ignara, aceita e porta-se como um rebanho de carneirinhos mansos. Esquecem-se do que aconteceu com a proibição das bebidas alcoólicas nos Estados Unidos: não só não foi possível impor efectivamente essa proibição como ela teve de ser levantada anos depois. Foi uma decisão estúpida, para começar.

E é perigosa porque reflecte um espírito autoritário, proto-fascista, de imposição de normas que têm em primeiro lugar a ver com o pensamento: a população, sempre ignara, não tem capacidade para raciocinar e evitar uma dada coisa; é necessário proibir-lhe o acesso a essa coisa. No caso dos hospitais, a comida proibida está lá fora, ou pode ser trazida de fora, ou de casa. O passo seguinte é alargar a proibição, revistar as pessoas, apreender os alimentos proibidos.

Não deixa de ser interessante ver como este fascismo alimentar (que entra no capítulo do politicamente correcto) nasce à esquerda, no caso vertente, na tríade governativa PS-PCP-BE. Para essa gente, o mundo será melhor quando se puder proibir tudo o que não corresponde ao seu pensamento único. Kim Jong-un, o «grande líder» da Coreia do Norte é decerto o ídolo orgiástico desta falange.

DIGESTIVO

No sábado passado fui a um dos mais simpáticos restaurantes da capital do concelho onde moro, com o simples nome de O Recanto. Das mãos prodigiosas da cozinheira saiu um cabrito assado igualmente prodigioso. Só lhe faltava um pouco de sal, o que compreendo: fica ao critério do cliente usar menos ou mais sal. O meio utilizado para essa ligeira correcção foi um saleiro de mesa. Já se diz, entretanto, que o Governo português quer proibir os saleiros de mesa nos restaurantes. Terei, e não serei decerto só eu, de passar a levar um saleiro portátil. O problema é se passam a pôr um polícia à porta de cada restaurante ou se cobram uma taxa por cada saleiro portátil que apanhem aos policiados cidadãos.

* Pedro Garcia Rosado é um escritor e tradutor português. Pode acompanhá-lo aqui: pedrogarciarosado.blogspot.pt

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