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Brasil: O tempo ruge e a Sapucaí é grande


O Portugal Digital publica até 2 de janeiro uma série de nove artigos de análise e perspetivas sobre o novo ano, de jornalistas, escritores, advogados e professores universitários do Brasil e de Portugal. O oitavo artigo é do jornalista Carlos Fino.


A frase cómica de um dos personagens da novela “A Senhora do Destino” (2004) – o bicheiro Giovanni Improta, interpretado pelo saudoso José Wilker – sintetiza à perfeição o novo momento político do Brasil que hoje se inicia com a investidura de Jair Bolsonaro na presidência da república.

Quem a lembrou, em declarações à imprensa, foi o próprio vice-presidente, general Hamilton Mourão, que não se tem inibido de expressar pontos de vista divergentes com os de Bolsonaro, apressando-se a deitar água na fervura sempre que o capitão na reserva, agora na chefia do Estado, cede aos impulsos populistas que o caracterizam e solta o verbo mais do que o necessário.

O militar – um dos sete de alta patente dos diferentes ramos das Forças Armadas que Jair trouxe para o núcleo duro do Planalto como uma espécie de  rede de segurança para o que der e vier – tem toda a razão: os problemas do Brasil são da dimensão do país e o tempo é escasso.

Uma das maiores dificuldades pode aliás vir a ser o próprio Bolsonaro, que parece não se ter ainda dado inteiramente conta de que a sua eleição, embora naturalmente legitimada pelo voto da maioria que foi às urnas, está longe de significar que o país inteiro comunga em pleno das suas atitudes e pontos de vista de extrema-direita.

Como lembra hoje o jornal “Estado de São Paulo”, “dos 147,3 milhões de eleitores, 57,7 milhões (39,2%) votaram no novo presidente e 89,3 milhões (60,8%), não. Entre estes, 42,5 milhões, quase um terço, não votaram nem em Bolsonaro nem em seu adversário do segundo turno, Fernando Haddad, do PT.”

É certo que, segundo as sondagens mais recentes, 65% “botam fé” no novo governo. Mas essa expectativa positiva sempre se verifica no começo de um novo mandato e é, em todo o caso, menor do que aquelas que tiveram FHC, Lula e Dilma.

Por outras palavras – a eleição de Bolsonaro não significa que o país lhe tenha dado um cheque em branco. Além disso, o regime democrático instituído pela Constituição de 1988 (a “Constituição Cidadã”) está em pleno vigor e muitas das propostas do novo presidente, além de precisarem de ser negociadas com o Congresso, estarão também sob escrutínio do Supremo Tribunal Federal.

Bolsonaro dá indícios de que seguirá o exemplo de Trump, procurando comunicar-se com o país prioritariamente através das redes sociais – onde ganhou as eleições em processo que poderá ter sido ilegal e está sob investigação – evitando os media tradicionais. Essa tentativa de estabelecer um canal direto com a massa do povo é própria dos líderes populistas e Bolsonaro já mostrou que domina o género. De alguma forma ele é até, pelo uso das expressões vernáculas – o contraponto de Lula, agora à (extrema)-direita. Dessa forma tentará obter apoio para exercer pressão política sobre o Parlamento. Mas não é garantido que a tática resulte, podendo inclusive – aqui como nos EUA – criar mais anticorpos à sua governação.

De qualquer forma, liberal na economia e conservador nos costumes, Bolsonaro inaugura uma nítida viragem à direita no Brasil, pondo termo a 22 anos de hegemonia partilhada entre a esquerda e o centro-esquerda (governos FHC e Lula/Dilma). E isso, só por si, já é uma enorme mudança – fazendo cair preconceitos e resistências ideológicas que pareciam consolidadas contra as privatizações e em favor da retração do Estado na economia.

Resta saber se a viragem se irá consolidar. Para tal, o novo governo terá, entre outras coisas, de criar incentivos que estimulem rapidamente a atividade económica por forma a diminuir o desemprego, que hoje abrange mais de 12 milhões de pessoas e é uma das principais preocupações da população, a par da segurança, saúde, educação, defesa do meio ambiente, luta contra a corrupção e o crime organizado.

Para atender a todos esses fogos, seriam necessárias mais verbas, mas as contas públicas estão no vermelho e para as sanear o governo terá de fazer a curto prazo uma reforma da Previdência (a que terá de seguir-se uma reforma fiscal) – assunto sempre muito sensível que pode rapidamente gerar amplo descontentamento. Sobretudo se a(s) reforma(s) que for(em) apresentada(s) poupar(em) setores privilegiados como são, entre outros, os militares, que Bolsonaro representa e tanto defende.

Enfim, como diria o famoso Giovanni Improta lembrado pelo general Mourão, “O tempo ruge e a Sapucaí é grande…”

*Carlos Fino é jornalista e vive em Brasília.

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Escrito por: Portugal Digital

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