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Bolsonaro: cheguei, vi e venci


O Portugal Digital publica até 2 de janeiro uma série de nove artigos de análise e perspetivas sobre o novo ano, de jornalistas, escritores, advogados e professores universitários do Brasil e de Portugal. O sétimo artigo é do jornalista Antonio Achilis.


Está votado e escrito: o Brasil vai ter nos próximos quatro anos um governo de “democracia musculada”, que era uma terminologia da Guerra Fria para a administração norte-americana caracterizar as ditaduras onde o “filho da p… é nosso”. Na humanista União Europeia a designação tornou-se mais maviosa, os países que têm um regime autoritário, onde o poder executivo exerce controlo direto sobre o legislativo e o judicial são qualificados de “iliberais” na comunicação social.

Uma agência funerária portuguesa, nesta senda de tornar mais suaves os nossos passos por este “vale de lágrimas”, como diziam os catecismos, suprimiu a palavra ‘morte’ nas participações de falecimento e passou a utilizar o mais correto “deixou a vida”. Em verdade ninguém pode dizer com certeza científica que não a recupere um dia e em matéria de vidas miraculosas o dogma está de há muito proclamado. Retomando o fio à meada, que leva à entronização do capitão Jair Bolsonaro como presidente do Brasil nos próximos quatro anos, sufragado por uma ampla maioria de 55% dos votos expressos numas eleições particularmente concorridas, vale a pena citar um ditado da tradição popular chinesa, imenso país igualmente propício a surpresas quanto a escolha de líderes políticos, que diz: Nunca é tão fácil perder-se como quando se julga conhecer o caminho.

Um erudito ensaísta brasileiro, Alberto Dines, que à semelhança de outro distinto observador da sociedade brasileira, Ruy Castro, manteve um distanciamento voluntário em matéria de opção de voto no escrutínio eleitoral, tanto no 1º como no 2º turno, previu em 2014, no acesso das manifestações contra a realização da Copa do Mundo de futebol, que algo ia mal no país do Carnaval.

Numa crónica para a edição brasileira do El País de 14/3/14 aponta para vaga de ódio que sente tomar conta da sociedade brasileira e da qual receia o pior. Para dar realismo ao escrito recorre ao paralelismo com o assassinato de Júlio César, no senado romano, nos idos de março de 44 a. C., que ao invés do desejado pelos conspiradores, que a si próprios se intitulavam “libertadores”, conduziu a república romana ao império ditatorial. Ele faz uma síntese do percurso político brasileiro a seguir à queda de João Goulart, em 1964, para chegar aos idos de março de 2014: “Os vaticínios dos idos de março de 1964 só conseguiram materializar-se por conta do ódio. Na ocasião, nossos radares espirituais estavam embaçados, incapazes de identificar a catástrofe. Faltou à maioria aquele sentimento trágico da vida de que falava Unamuno – a percepção do abismo, a aproximação veloz do desenlace e da ruína.”

Oxalá a história não se repita, mas Ruy Castro está algo descrente quanto ao desfecho e recorre a um camarada de ofício, Sérgio Rodrigues, que numa crónica na Folha de São Paulo apontou para “ódio” como a palavra do ano no Brasil. A palavra não fora nos livros que a encontrara, mas “nas ruas do meu país.” Na sua crónica de 28/10/18, no Diário de Notícias português, Ruy Castro deu conta do que também viu: a “polarização em torno de Jair Bolsonaro e Fernando Haddad”. Na vivacidade do seu estilo de repórter dá conta do que viu: “Os partidários de um e de outro [Bolsonaro e Haddad] construíram um discurso de ódio mútuo, a tornar impossível qualquer discussão civilizada sobre os defeitos ou virtudes de cada um. Não há mais tolerância (…)”

Ambos os distintos jornalistas consideram que na fonte deste pesadelo está o confronto entre petistas e antipetistas, mas um outro confrade, este português, a residir há anos em terras do Paraná, João Almeida Moreira, propõe uma outra grelha de leitura, que enuncia como o “efeito Danuza”, do nome da ex-modelo e jornalista da socialite brasileira, Danuza Leão. Foi numa crónica do citado DN português de 11/10/18 que ele deu conta aos leitores da sua pesquisa. Em 2011, Danuza Leão escreveu: “ir a Nova Iorque ver os musicais da Broadway já teve a sua graça, mas, por 50 reais mensais, o porteiro do prédio também pode ir, então qual a graça? Enfrentar 12 horas de avião para chegar a Paris, entrar nas perfumarias que dão 40% de desconto, com vendedoras falando português e onde você só encontra brasileiros – não é melhor ficar por aqui mesmo?”

As estatísticas oficiais informam que o Brasil é um país com 204 milhões de habitantes, contudo, recordo uma estadia em terras brasileiras, no início da década de 1990, onde me perguntei porque via tanta miudagem nas ruas das cidades, umas entravam nos autocarros escolares, mas outras não. A resposta foi que estas últimas não tinham “registo”. Depois de algumas explicações compreendi que não ter registo significava não existir nos livros da administração estadual – não tinham certidão de nascimento. Logo não podiam ir à escola, como também não poderiam votar nem exercer qualquer direito cívico, para além do possível viver até que a morte ocorresse.

Creio que com todos os defeitos, malversações financeiras e incipiências técnicas, era a isso que o PT queria pôr cobro, quando Lula prometia três refeições a todos os brasileiros. Foi certamente um exagero, mas dar um nome a todos os seres humanos e uma entidade cívica não será um direito fundamental? Penso que ninguém porá isso em dúvida; já agora a mesma coisa quanto ao direito à alimentação, à educação e à habitação.

Oxalá os próximos quatro anos da nova presidência venham a concretizar plenamente este mínimo civilizacional.

*António Melo é jornalista e vive em Portugal.

 

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Escrito por: Portugal Digital

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