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Caras amigas e amigos, que venha 2018!

Amigos de muitos anos, de muitas conversas e até de desconversas, amigas de ontem e de hoje, eu me confesso: não acredito que me saia a Mega-Sena, uma espécie de Euromilhões, nem que o Brasil, na virada do ano, por artes de alguma fada, inicie um percurso de resultados econômicos pujantes, que façam esquecer os anos de recessão e o pífio crescimento de 2017, que deverá ficar em torno de 1%. Não acredito! Chamem-me pessimista, descrente, céptico! Estejam à vontade. Repito: não acredito.


Permitam-me, no entanto, que, no virar do ano, deseje a todos os que me dão o privilégio de dividir comigo este espaço de cerrado – no planalto central do gigante de pés de barro, de futuro glorioso sempre adiado -, e aos que vivem no meu coração do outro lado do mar imenso, um ano novo repleto de alegrias, de boas notícias e, é claro, de saúde.  E faço-o com a convicção que me guia há muitos, muitos anos: é a de que seremos capazes de construir um mundo melhor, mais igual. Não! Tranquilizem-se os meus amigos: não me rendi a qualquer fé, a qualquer promessa messiânica. Continuo a acreditar que a mudança é necessária, possível e é obra coletiva. Apenas isso!

E, por assim pensar, não acredito que 2018 seja o grande ano brasileiro. Meirelles (ex-Banco de Boston e etcetera) – que parece querer ser o boy da vez do capital financeiro na corrida presidencial –  garante que o país vai crescer muito.  Será? Duvido. Duvido que consiga voltar ao patamar anterior aos anos de recessão. Por uma simples razão: o país não gosta de Temer, o senhor presidente. Por quê? porque não é politicamente confiável e porque é suspeito, segundo a Justiça. E os homens e mulheres das malas de dinheiro não se mostram dispostos a colocar as suas moedinhas sem muitas e boas garantias.

Ainda antes do Carnaval – de muita festa, como sempre, com a música a troar e a cerveja a correr pelas calçadas -, teremos um outro acontecimento que, julgo eu, merece especial destaque nesta prosa. No dia 24 de janeiro, os desembargadores do Tribunal Regional Federal  em Porto Alegre vão decidir sobre o recurso interposto pelo ex-presidente Lula à condenação, em primeira instância, proferida pelo juiz Sérgio Moro, a mais de nove anos de prisão, por crimes de corrupção e lavagem de dinheiro. Outros seis processos por crimes idênticos correm contra Lula na Justiça brasileira. Caso Lula não seja declarado inocente ou a sentença anulada – os meandros técnicos, processuais, da Justiça, são sempre capazes de nos surpreender -, o ex-presidente pode dizer adeus à possibilidade de se candidatar, mais uma, vez ao Palácio do Planalto. Adeus imunidades, adeus proteção.

Assim, o 24 de janeiro – se os desembargadores não decidirem adiar a decisão, seja ela qual for, só para arreliarem o país – será um dia a marcar na sua agendinha. Um dia que será triste, ainda que o sol brilhe em céu limpo de nuvens. Não, eventualmente, pela  confirmação da condenação, mas triste pelo conjunto de factores que a ela conduziram e pelos quais Lula foi o primeiro responsável, ainda que tenha por hábito eximir-se a responsabilidades, como já o fez no processo do “mensalão”.

Se Temer e os que o apoiam conseguem, hoje, aprovar decretos e leis que constituem ataques frontais à construção e consolidação de um Estado de direito, democrático e progressista, devem-no, em grande medida, à política de alianças, com os que hoje estão no poder, e de corrupção institucionalizada, seguida por Lula e pelo seu grupo, à revelia da maioria de ativistas e eleitores do PT, que são, suponho, gente séria, honesta e, em  geral, generosa.

E o ano segue. A reforma da Previdência, necessária, mas não com o figurino costurado pelo Planalto e aliados, se aprovada pelo Congresso, será uma reforminha, uma coisinha só para não destruir o ego presidencial que fez dela cavalo de batalha, a ponto de dizer que ou é aprovada ou o país entra em bancarrota. O dramatismo de Temer é digno de nota. E, depois disso, será a vez do Carnaval! Ocasião para ler ou reler No País do Carnaval, de Jorge Amado. Fica a sugestão.

E depois? Depois, a alta e baixa politicagem, com os motores já aquecidos, lança-se na corrida às eleições gerais.   Quantos serão os candidatos presidenciais? Há quem diga que uma dezena já são potenciais corredores…uns com mais fôlego, outros sem fôlego sequer para cruzar a Praça dos Três Poderes, entre o Congresso Nacional e o Palácio do Planalto, em Brasília. Uma coisa é certa: o pano de fundo, a contragosto de quase todos os participantes, será a Lava Jato. E será a contragosto que todos ou quase todos farão pungentes declarações de amor à Lava Jato.

A grande incógnita é se o povo brasileiro quererá participar. E, se sim, como o fará? Apesar de tudo o que atrás escrevi,  admito que o Brasil ainda possa dizer basta à velha política, num horizonte temporal próximo. Que possa deitar para a lixeira da história a política da corrupção sistemática e sistêmica, do troca-troca, do fisiologismo. Se tal acontecer, ao longo do ano que agora começa,  é bem provável que me torne de novo um otimista, como o era quando a Revolução dos Cravos inundou de alegria as ruas de Lisboa e a independência de Angola fez troar os batuques e as marimbas nos musseques de Luanda, e o rodopiar dos corpos, nos bailes da Ilha do Cabo, ganhou a magia da liberdade. Aí, Benjamim!, escreveu o poeta. Um bom ano para todos!, desejo eu.

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Escrito por: Portugal Digital

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