Quinta, 02 de Outubro, 2014

"Mensalão", um dos maiores escândalos políticos do Brasil, começa a ser julgado hoje

O mensalão foi o "o mais atrevido e escandaloso esquema de corrupção e de desvio público flagrado no Brasil", diz o procurador-geral da República sobre o processo que começa a julgar hoje, em Brasília, 38 réus.

Brasília - Sete anos depois do escândalo político que ameaçou o primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o Supremo Tribunal Federal (STF) começa a julgar, no início da tarde desta quinta-feira (2), em Brasília, os réus do processo "mensalão", apontado como um dos maiores escândalos da história política contemporânea do Brasil. Mais de 100 milhões de reais terão sido movimentados irregularmente.

Para Lula, que não foi acusado de nada, tudo não passou de uma "farsa". O ex-presidente - o político mais carismático do Brasil nos últimos anos -, garante que nunca soube de nada. E, graças à sua popularidade, quase não foi tocado pelo escândalo que envolveu várias figuras políticas do seu governo e do Partido dos Trabalhadores.

Na sala do Tribunal deverão estar hoje 38 reús acusados de diversos crimes, como corrupção, peculato, lavagem de dinheiro e formação de quadrilha, resultantes de um esquema que visou comprar apoio de parlamentares e saldar dívidas de campanha eleitoral com dinheiro não contabilizado, o chamado "caixa 2".

Entre os acusados, alguns faziam parte do círculo mais próximo de Lula, nomeadamente José Dirceu, ex-ministro chefe da Casa Civil da Presidência da República, apontado na época como o "número dois" do governo.

Figura "pivot" do escândalo,  Robert Jefferson, presidente nacional do PTB, que perdeu o mandato de deputado no final de uma polêmica Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI), deverá estar ausente da sala de audiências por razões de saúde.

Foi Robert Jefferson quem, depois de ter sido acusado de comandar um esquema de corrupção envolvendo executivos da empresa estatal de Correios, denunciou o processo de compra de parlamentares, de diversas bancadas, para votarem favoravelmente projetos apresentados pelo governo.

À frente do "mensalão", de acordo com a acusação apresentada pelo procurador-geral de República, Roberto Gurgel, estava José Dirceu, advogado e, hoje, influente homem de negócios, com fácil circulação em meios políticos e empresariais.

A Procuradoria Geral da República procura provar, num memorial de quase 400 páginas de depoimentos dos réus e testemunhas, além de documentos, o esquema de corrupção instalado no primeiro mandato do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva. Para Roberto Gurgel, o episódio do mensalão foi o "o mais atrevido e escandaloso esquema de corrupção e de desvio público flagrado no Brasil".

Mas, o ex-ministro chefe do primeiro governo Lula não estava sozinho. Deputados, empresários e banqueiros teriam participado do esquema, segundo a acusação.

O julgamento, que poderá se estender por dois meses, além de réus famosos conta com não menos famosos advogados de defesa, entre os quais os ex-ministros da Justiça, Márcio Thomaz Bastos e José Carlos Dias, e o ex-procurador-geral da República, Alberto Zacharias Toron. São advogados conhecidos, no meio jurídico, por cobrarem honorários fabulosos.

Cerca de 500 testemunhas e mais de 50 mil páginas de autos constituirão a parte substantiva do julgamento que atrai a atenção da mídia brasileira e internacional.

O publicitário Marcos Valério, apontado como o "operacional" financeiro do esquema, é o réu com maior número de acusações. Ele é acusado 11 vezes por corrupção ativa, seis vezes por peculato, 72 vezes por lavagem de dinheiro e 53 vezes por formação de quadrilha e evasão de divisas.

Se for condenado por todas as acusações,  Marcos Valério poderá receber uma pena entre 10 anos a 66 anos de prisão. Já José Dirceu está sujeito a uma pena de 2 a 20 anos de reclusão, à semelhança de outros réus, acusados de crimes idênticos.

O governo da presidente Dilma Rousseff procura manter um clima de distanciamento face ao julgamento, apesar da proximidade política com alguns dos réus. O ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Gilberto Carvalho, disse, na véspera do início do julgamento, que a orientação da presidente Dilma Rousseff é que a rotina de trabalho do governo não seja alterada durante o julgamento.

"Temos uma decisão de governo de continuar trabalhando, com muita seriedade nesse tempo. O Judiciário vai fazer a parte dele, nós temos confiança no Poder Judiciário e seguiremos trabalhando", afirmou.

Adicionar comentário

Seu apelido/nome:
seu email:
Comentário: